Curral em um sítio na cidade de Jaboticabal, interior de São Paulo.

Resgate de uma tradição familiar

Nessas ultimas férias usei grande parte do meu tempo para repor as energias e matar a saudade de algumas coisas que fizeram parte da minha vida por muito tempo e hoje estão um pouco longe. Foram pouco menos de vinte dias de muitas conversas, risadas e reencontros sempre ao redor de mesas fartas de comidas de diferentes fases da minha vida.

Taí uma coisa bem peculiar de morar longe da sua terra natal, quando você está de volta, não importa quanto tempo você tem, sempre vai querer sentir um pouco do gostinho de casa. Desde o arroz com feijão da casa dos seus pais até o x-tudo do carrinho de lanche da praça central. Mas de todas as histórias que vivenciei nessa minha última estadia, quero aqui destacar e contar uma em particular, uma que envolve uma tradição culinária da minha família: fazer o queijo fresco.

Desde o meu primeiro registo de memória até o último que tenho do meu avô paterno, ele sempre estava, pelo menos uma parte do seu dia, no tanque da varanda, onde fazia seus queijos. Meu pai saia de casa todo os dias bem cedo para tirar o leite das vacas, criadas no sítio da família, para depois meus avós transformarem em queijo fresco, ricota e mozarela, que eram vendidos quase que imediatamente todos os dias. Mas com os anos e, principalmente, após a morte do meu avô, essa tradição foi se perdendo.

Era uma coisa tão corriqueira na nossa família que beirava o comum, mas só depois de sair de lá e começar a explorar outras regiões e ingredientes que enxerguei o quanto isso era incrível, que minha família tinha sim uma tradição rica e esquecida, um tesouro guardado nos quartinhos do fundo da casa da minha avó.

Esse pensamento fermentou na minha cabeça por alguns meses, enquanto estava longe, e, nesta última visita voltei, convoquei meu pai a uma empreitada: “vamos fazer queijo?”

Leite coalhando.

Leite coalhando.

Ele aceitou meu convite e, no dia seguinte, logo às 6 da manhã, meu sacudiu da cama, porque, segundo ele, para dar certo o nosso queijo, o melhor seria pegar o leite ainda morno saindo da vaca. E assim o fizemos, madrugamos, buscamos o leite e começamos a fazer o tal do queijo.

Depois de um pouco mais de uma hora no coalho o leite começou a se transformar em queijo, separando o soro da massa.

Separando a massa do queijo do soro.

Separando a massa do queijo do soro.

Recheamos as formas e depois de um aperto daqui e uma mexida de lá, pronto – nosso queijo fresco já estava descansando para dali algumas horas ser degustado.

O mais legal de tudo isso foi reviver algo muito rico do passado, uma tradição familiar enraizada que, com o tempo, está sumindo.

Isso me faz pensar em quantas famílias por ai estão entregando os pontos à maneira de vida que levamos hoje, a correria, uma busca contínua por uma vida melhor e deixando de lado coisas que realmente trazem sentido a vida, simplesmente deixando de viver. Afinal o que tenho guardado aqui é a vivência que passei com o meu pai ao redor de um bom queijo nesse dia maravilhoso, que tivemos juntos.

Os queijos devem ficar por pelo menos duas horas nas formas descansando.

Os queijos devem ficar por pelo menos duas horas nas formas descansando.

A gastronomia está muito além da mesa, está nas relações de afeto que a cercam, desde a produção dos ingredientes, passando pela cozinha, pela mesa vazia depois de uma lanche e até as reflexões que podem durar dias.

E na sua família, que tradição você precisa resgatar?

Aproveite e vivencie!

 

 

3 ideias sobre “Resgate de uma tradição familiar

  1. Mariá

    Adorei!! A minha família também tem receitas peculiares que só vovó fazia! Para mim, o mais gostoso é um doce português chamado Filhós, que tem o tal do “ponto” que só ela sabia dar, e por isso ninguém mais da nossa família se arriscava.
    Tentei duas vezes; uma deu certo, mas a outra não! Hahahah Vai entender né! :)

  2. SUEMIS CAMASSUTTI BEDORE

    Ao ler seu relato filho, reportei-me ao passado também e pude perceber quanto foi importante a vossa participação em cada momento de nossas vidas.
    Sinto-me orgulhosa por ver desabrochar em você essa sensibilidade e estar disponível para estimular outras pessoas a também viver experiências na cozinha com seus filhos que farão a grande diferença nos dias de hoje , onde a tecnologia parece ser a ferramenta mais importante, porém se ficarmos escravos dela, seremos pessoas solitárias.
    Vá em frente e que você possa ser o motivador para aproximação de muitos pais com seus filhos, e assim
    poderão viver mais felizes pois o diálogo entre ambos fará deles pessoas que realmente se conhecem e se respeitam.

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