Sobre a evolução dos gostos

Pelas histórias que minha mãe conta, pode-se dizer que fui uma criança com paladar diferente do comum. Pouco antes do intervalo da escola infantil, os professores ficavam curiosos com o que sairia da minha lancheira. Repolho com mel era um dos preparos favoritos, combinação que ficou restrita a meus tempos de infância.

Um pouco mais crescido, adquiri hábitos alimentares considerados mais convencionais. Comia, e ainda como, de tudo – da batata frita ao jiló – mas não conseguia encarar o café e o bacalhau. O sabor intenso do café somente era tolerado se diluído no leite, nos momentos de desespero quando o achocolatado não era uma opção.

Diferente era a situação com o bacalhau, que não possuía concessões. Até que fui morar em Portugal por alguns meses. Com coragem, assumi que seria inadmissível atravessar o Atlântico e não experimentar o peixe salgado em dos países mais famosos pelo seu preparo. Nas primeiras semanas pós desembarque, fui à praça de alimentação de um shopping center, onde, em meio à multidão, poderia fazer careta durante o meu desafio sem risco de discriminação. Para minha surpresa, fui encantado por um dos pratos que ainda é um dos mais apreciados pelo meu pai.

Quatro anos antes de visitar as terras de origem da nossa extinta monarquia, eu já estava rendido ao poder mágico da cafeína. Era o primeiro dia do estágio, o professor responsável pelo laboratório passou algumas instruções básicas e saiu, deixando uma pilha de manuais e procedimentos para serem estudados. Para processar todas aquelas novas informações, meu cérebro parecia sugar a energia de todo o restante do corpo, e uma sonolência imbatível tomava conta de mim. Encontrei minha salvação estava em uma garrafa prateada que ficava sobre uma mesa verde. Foi buscando energia extra, me transformei em um consumidor assíduo de café.

Depois de conhecer pessoas de diferentes culturas, adquiri um gosto por experimentar preparos e ingredientes que eu desconhecia. Entretanto, meu paladar eclético não conseguia entender o quê motivava uma pessoa a beber chá, que para mim era muito “sem gosto”. Ainda assim, experimentava vez por outra. Não sei porque, mas minhas papilas reagiram diferente certa tarde em viagem a Foz Iguaçu, quando comprei um chá gelado de hibisco com limão. Foi a partir daquele dia que comecei a comprar folhas e flores para testar diferentes combinações de infusões.

É interessante como a percepção dos sabores muda com o tempo. Há uma série de fatores que contribuem para isto:  memória gastronômica, o contexto em que se experimenta, conhecimento da história daquele preparo e até mesmo motivações pessoais. O que agrada nosso paladar hoje não é o mesmo que ontem ou amanhã. Gostar ou não gostar não é o problema, mas sim o não experimentar.

Então, arrisque-se, experimente, prove, goste, não goste, mas sempre evolua seu paladar. Como sabiamente dizia Raul, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante.

2 ideias sobre “Sobre a evolução dos gostos

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